aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

TEMPO


Diz-me o corpo, ao findar a jornada terrena: 
- Deixa-me agora em paz! Não me prendas assim! 
- Tempo!... Anseio mais tempo - exoro, vendo o fim, Enquanto a morte ausculta a dor que me envenena. 

Eis que o Tempo perdido, em pranto, surge à cena!...  
Imploro : «Ah! Tempo amigo, abeira-te de mim, 
Quero voltar contigo à estrada de onde vim, 
Para amar e servir, segundo a Lei me ordena!...» 

Ele, porém, não ouve e afasta-se em surdina... 
- Vamos! - capacita a morte - a luta não termina, 
Não me atrases mais tempo à força de teus ais!...

Onde o Tempo? - clamei, e a morte me elucida: 
- Tudo terás de novo, o recomeço, a vida, 
Mas Tempo gasto em vão, nunca mais! nunca mais!...

José Cirilo das Chagas