aqui mora a poesia...

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RECORDAÇÕES EM LEOPOLDINA


A sombra amiga destes montes calmos, 
Meu pobre coração de anacoreta, 
Amortalhado em fina roupa preta, 
Desceu à escuridão dos sete palmos. 

Viera o fim dos sonhos intranquilos, 
Entre grandes e estranhos pesadelos, 
Satisfazendo aos trágicos apelos 
Da guerra inexorável dos bacilos. 

A morte terminara o horrendo cerco, 
Sufocando as moléculas madrastas... 
Eram milhões de células nefastas, 
Voltando à paz do túmulo de esterco. 

Indiferente aos últimos perigos, 
Meu corpo recebeu o último beijo 
E comecei o lúgubre cortejo, 
Sustentado nos braços dos amigos.

Em triste solilóquio no trajeto, 
Espantado, fitando as mãos de cera, 
Rememorava o tempo que perdera, 
Desde as primárias convulsões do feto. 

Porque morrer amando e haver descrido 
Do Eterno Sol, do qual vivera em fuga? 
Como é sombrio o pranto que se enxuga 
Pelo infinito horror de haver nascido!... 

Depois, vi-me no campo onde a dor medra, 
Ao contato do chão frio e profundo, 
Chegara para mim o fim do mundo, 
Entre as cruzes e os dísticos de pedra. 

Terrível comoção pintou-me a cara, 
Na escabrosa cidade dos pés juntos, 
Tornara-se defunta, entre os defuntos, 
Toda a ciência de que me orgulhara. 

Trêmulo e só no leito subterrâneo, 
Sentia, frente à lógica dos fatos, 
O pavor dos morcegos e dos ratos, 
Dominar os abismos de meu crânio. 

Meus ideais mais puros, meus lamentos, 
E a minha vocação para a desgraça 
Reduziam-se a mísera carcaça 
Para o açougue dos vermes famulentos. 

Em seguida o abandono, enfim, do plasma, 
Os micróbios gritando independência... 
E tomei nova forma de existência 
Sob a fisiologia do fantasma. 

Fugindo então ao gelo, à sombra e à ruína. 
Do caos sinistro em que vivi submerso 
Revelou-se-me a glória do universo, 
Santificado pela Luz Divina. 

Oh! Que ninguém perturbe os meus destroços, 
Nem arranque meu corpo à última furna, 
É Leopoldina a generosa urna, 
Que, acolhedora, me resguarda os ossos. 

Beije minh'alma alegre o pó da rua, 
Deste painel bucólico e risonho, 
Onde aprendi, no derradeiro sonho, 
Que o mistério da vida continua... 

Bendita seja a Terra, augusta e forte, 
Onde, através das vascas da agonia, 
Encontrei em mim mesmo, em novo dia, 
Pelas revelações da luz da morte.

Augusto dos Anjos