aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

Plenitude


Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra. 
O ar é como de forja. A força nova e pura 
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto, fibra a fibra, Avassalar-me o ser a vontade da cura. 

A energia vital que no ventre profundo 
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes, 
Sobe no caule, faz todo galho fecundo 
E estala na amplidão das ramadas felizes, 

Entra-me como um vinho acre pelas narinas... 
Arde-me na garganta... E nas artérias sinto 
O bálsamo aromado e quente das resinas 
Que vem na exalação de cada terebinto. 

O furor de criação dionisíaco estua 
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas, 
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua 
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas  

Tenho êxtase de santo... Ânsias para a virtude... 
Canta em minh'alma absorta um mundo de harmonias. Vêm-me audácias de herói... Sonho o que jamais pude 
- Belo como Davi, forte como Golias... 

E neste curto instante em que todo me exalto 
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo, 
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto 
Nem flamejou mais bela a chama do desejo. 

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza! 
Vós que cicatrizais minha velha ferida... 
Vós que me dais o grande exemplo de beleza 
E me dais o divino apetite da vida!