aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

O poeta 1


Quantos somos, não sei... 
Somos um, talvez dois, três, talvez, quatro; 
cinco, talvez nada 
Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil 
e cujos restos encheriam doze terras 
Quantos, não sei... 
Só sei que somos muitos 
– o desespero da dízima infinita 
E que somos belos deuses mas somos trágicos. Viemos de longe... 
Quem sabe no sono de Deus 
tenhamos aparecido como espectros 
Da boca ardente dos vulcões 
ou da orbita cega dos lagos desaparecidos 
Quem sabe tenhamos germinado 
misteriosamente do sono cauterizado das batalhas Ou do ventre das baleias 
quem sabe tenhamos surgido? 
Viemos de longe – trazemos em nós 
o orgulho do anjo rebelado 
Do que criou e fez nascer 
o fogo da ilimitada e altíssima misericórdia 
Trazemos em nós o orgulho 
de sermos úlceras no eterno corpo de Jó 
E não púrpura e ouro no corpo 
efêmero de Faraó. 
Nascemos da fonte e viemos puros 
porque herdeiros do sangue 
E também disformes porque – ai dos escravos! 
não há beleza nas origens 
Voávamos – Deus dera a asa do bem 
e a asa do mal às nossas formas impalpáveis Recolhendo a alma das coisas 
para o castigo e para a perfeição na vida eterna. Nascemos da fonte e dentro 
das eras vagamos como sementes invisíveis 
o coração dos mundos e dos homens 
Deixando atrás de nós o espaço 
como a memória latente da nossa 
vida anterior 
Porque o espaço é o tempo morto 
– e o espaço é a memória do poeta 
Como o tempo vivo é a memória 
do homem sobre a terra. 
Foi muito antes dos pássaros 
– apenas rolavam na esfera os cantos de Deus 
E apenas a sua sombra imensa 
cruzava o ar como um farol alucinado... 
Existíamos já... 
No caos de Deus girávamos 
como o pó prisioneiro da vertigem 
Mas de onde viéramos nós e 
por que privilégio recebido? 
E enquanto o eterno tirava da música vazia 
a harmonia criadora 
E da harmonia criadora a ordem 
dos seres e da ordem dos seres o amor 
E do amor a morte e da morte o tempo 
e do tempo o sofrimento 
E do sofrimento a contemplação 
e da contemplação a serenidade imperecível 
Nós percorríamos como estranhas 
larvas a forma patética dos astros 
Assistimos ao mistério da revelação 
dosTrópicos e dos Signos 
Como, não sei... 
Éramos a primeira manifestação da divindade Éramos o primeiro ovo 
se fecundando à cálida centelha. 
Vivemos o inconsciente das idades 
nos braços palpitantes dos ciclones 
E as germinações da carne 
no dorso descarnado dos luares 
Assistimos ao mistério da revelação 
dos Trópicos e dos Signos 
E a espantosa encantação 
dos eclipses e das esfinges.  
Descemos longamente o espelho 
contemplativo das águas dos rios do Éden 
E vimos, entre os animais, 
o homem possuir doidamente a fêmea sobre a relva Seguimos… 
E quando o decurião feriu 
o peito de Deus crucificado 
Como borboletas de sangue 
brotamos da carne aberta 
e para o amor celestial voamos. 
Quantos somos, não sei... 
somos um, talvez dois, três, talvez quatro; 
cinco, talvez, nada 
Talvez a multiplicação de cinco mil 
e cujos restos encheriam doze terras 
Quantos, não sei… 
Somos a constelação perdida 
que caminha largando estrelas 
Somos a estrela perdida 
que caminha desfeita em luz.