aqui mora a poesia...

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O poeta 3


Mas vai que havia por esse tempo 
nas tribos da terra 
Estranhas mulheres de olhos parados 
e longas vestes nazarena 
Que tinham o plácido amor 
nos gestos tristes e sereno 
E o divino desejo nos frios lábios anelantes. 
E quando as noites estelares 
fremiam nos campos sem lua 
E a Via Láctea como uma visão de lágrimas surgia Elas beijavam de leve a face do homem 
dormindo no feno 
E saíam dos casebres ocultos, 
pelas estradas murmurantes. 
E no momento em que a planície escura 
beijava os dois longínquos horizontes 
E o céu se derramava iluminadamente 
sobre a várzea 
Iam as mulheres e se deitavam 
no chão paralisadas 
As brancas túnicas abertas 
e o branco ventre desnudado. 
E pela noite adentro elas ficavam, descobertas 
O amante olhar boiando sobre 
a grande plantação de estrelas 
No desejo sem fim 
dos pequenos seres de luz alcandorados 
Que palpitavam na distância 
numa promessa de beleza. 
E tão eternamente os desejavam 
e tão na alma os possuíam 
Que às vezes desgravitados 
uns despenhavam-se no espaço 
E vertiginosamente caíam numa 
chuva de fogo e de fulgores 
Pelo misterioso tropismo subitamente carregados. Nesse instante, ao delíquio de amor das destinadas Num milagre de unção, delas se projetava à altura Como um cogumelo gigantesco 
um grande útero fremente 
Que ao céu colhia a estrela 
e ao ventre retornava. 
E assim pelo ciclo negro da pálida 
esfera através do tempo 
Ao clarão imortal dos pássaros de fogo 
cruzando o céu noturno 
As mulheres, aos gritos agudos 
da carne rompida de dentro 
Iam se fecundando ao amor puríssimo do espaço. 
E às cores da manhã elas voltavam vagarosas 
Pelas estradas frescas, através 
dos vastos bosques de pinheiros 
E ao chegar, no feno onde 
o homem sereno inda dormia 
Em preces rituais e cantos místicos velavam. 
Um dia mordiam-lhes o ventre, 
nas entranhas – entre raios de sol vinha tormenta… Sofriam... e ao estridor dos elementos confundidos Deitavam à terra o fruto maldito 
de cuja face transtornada 
As primeiras e mais tristes lágrimas desciam. 
Tinha nascido o poeta. 
Sua face é bela, seu coração é trágico 
Seu destino é atroz; 
ao triste materno beijo mudo e ausente 
Ele parte! Busca ainda as viagens 
eternas da origem 
Sonha ainda a música um dia ouvida 
em sua essência.