aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

O poeta 2


E uma vez, quando ajoelhados 
assistíamos à dança nua das auroras 
Surgiu do céu parado como 
uma visão de alta serenidade 
Uma branca mulher 
de cujo sexo a luz jorrava em ondas 
E de cujos seios corria um doce leite ignorado. 
Oh, como ela era bela! 
era impura – mas como ela era bela! 
Era como um canto ou como 
uma flor brotando ou como um cisne 
Tinha um sorriso de praia em 
madrugada e um olhar evanescente 
E uma cabeleira de luz como 
uma cachoeira em plenilúnio. 
 Vinha dela uma fala de amor irresistível 
Um chamado como uma canção noturna na distância Um calor de corpo dormindo 
e um abandono de onda descendo 
Uma sedução de vela fugindo ou de garça voando. 
E a ela fomos e a ela nos misturamos e a tivemos... Em véus de neblina fugiam as auroras 
nos braços do vento 
Mas que nos importava se 
também ela nos carregava nos seus braços 
E se o seu leite sobre nós escorria e pelo céu? 
Ela nos acolheu, estranhos parasitas, 
pelo seu corpo desnudado 
E nós a amamos e defendemos 
e nós no ventre a fecundamos 
Dormíamos sobre os seus seios 
apoiados ao clarão das tormentas 
E desejávamos ser astros 
para inda melhor compreendê-la. 
Uma noite o horrível sonho desceu 
sobre as nossas almas sossegadas 
A amada ia ficando gelada e silenciosa 
– luzes morriam nos seus olhos... 
Do seu peito corria o leite frio 
e ao nosso amor desacordada 
Subiu mais alto e mais além, 
morta dentro do espaço. 
 Muito tempo choramos e as nossas lágrimas inundaram a terra 
Mas morre toda a dor ante 
a visão dolorosa da beleza 
Ao vulto da manhã sonhamos 
a paz e a desejamos 
Sonhamos a grande viagem 
através da serenidade das crateras. 
Mas quando as nossas asas 
vibraram no ar dormente 
Sentimos a prisão nebulosa 
de leite envolvendo as nossas espécies 
A Via Láctea – o rio da paixão correndo 
sobre a pureza das estrelas 
A linfa dos peitos da amada que um dia morreu. Maldito o que bebeu o leite dos seios da virgem 
que não era mãe mas era amante 
Maldito o que se banhou na luz 
que não era pura mas ardente 
Maldito o que se demorou na contemplação 
do sexo que não era calmo mas amargo 
O que beijou os lábios que eram 
como a ferida dando sangue! 
 E nós ali ficamos, batendo as asas libertas, 
escravos do misterioso plasma 
Metade anjo, metade demônio, 
cheios de euforia do vento 
e da doçura do cárcere remoto 
Debruçados sobre a terra, 
mostrando a maravilhosa essência da nossa vida Lírios, já agora turvos lírios das campas, 
nascidos da face lívida da morte.