aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

O AVARENTO


Vivera encastelado entre pepitas de ouro, 
Conservava os dobrões em constante revista... 
Padecera penúria, avaro e calculista, 
Para afagar, sozinho, o metal frio e louro. 
Por mais a angústia, cerce, implore, clame e insista, 
Dar-lhe parece ater-se à loucura e ao desdouro; 
A ambição pede mais para o tempo vindouro, 
Mas o tempo galopa e a morte surge à vista. 
Regela-se-lhe o corpo em triste pesadelo!... 
Afanam-se na cova os vermes para vê-lo... 
Ele acorda, estremece, agita-se, reclama... 
Dementado, a razão, por fim, se lhe tresmalha, 
Crê-se no leito antigo, ao toque da mortalha, 
E vê ouro e mais ouro onde há lama e mais lama. 

José Cirilo das Chagas