aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

Não sei dançar


Uns tomam etér, outros cocaína. 
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. 
Tenho todos os motivos menos um de ser triste. 
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria... Abaixo Amiel! 
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff. 
Sim, já perdi, pai, mãe, irmãos. 
Perdi a saúde também. 
É por isso que sinto como ninguém 
o ritmo do jazz-band. 
Uns tomam etér, outros cocaína. 
Eu tomo alegria! 
Eis aí por que vim a este baile de terça-feira gorda. Mistura muito excelente de chás... 
Esta foi açafata... 
- Não, foi arrumadeira. 
E está dançando com o ex-prefeito municipal. 
Tão Brasil! 
De fato este salão de sangues 
misturados parece o Brasil... 
Há até a fração incipiente amarela 
Na figura de um japonês. 
O japonês também dança maxixe: 
Aculêlê banzai! 
A filha do usineiro de Campos 
Olha com repugnância 
Para a crioula imoral. 
No entanto o que faz a indecência da outra 
É dengue nos olhos maravilhosos da moça. 
E aquele cair de ombros... 
Mas ela não sabe... 
Tão Brasil! 
Ninguém se lembra da política... 
Nem dos oito mil quilômetros de costa... 
O algodão de Seridó é o melhor do mundo... 
Que me importa? 
Não há malária nem moléstia de Chagas 
nem ancilostomos. 
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. 
Eu tomo alegria!