aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

DONA BRANCA


Na mansão, Dona Branca, agitando as mão finas, Exclama: "Pobres, não!"... E, irônica, acentua: 
— "Mendigo é na cadeia e miséria é na rua..." 
E os pedintes se vão a férreas disciplinas. 
Chora a penúria em torno e há festas libertinas, 
Dorme-se à luz do sol e regala-se à lua... 
Numa noite brilhante, a morte se insinua 
E furta Dona Branca ao mar de serpentinas... Desencarnada agora, a mente se lhe atrela 
A miragens febris!... Crê-se adornada e bela, 
Nada conserva além da sombra em que se toca...
E, mulher que fugira ao serviço fecundo, 
Dona Branca, algemada às lembranças do mundo, 
Baila na própria campa em frêmitos de louca. 

Silva Ramos