aqui mora a poesia...

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CASO DE MORTE


A morte que vem à vida 
Na força do Eterno Bem 
É visita inesperada 
Que não faz mal a ninguém. 
Na criatura cansada 
De doença ou provação, 
Ela aparece na estrada 
Por doce libertação. 
Mas a morte provocada, 
Por mais que a luta nos doa, 
É fruto amargo no tempo 
Que estraga qualquer pessoa. 
Quem pede para morrer 
Sem calma e fé, a contento, 
Na hora solicitada 
Encontra arrependimento. 
Nesse passo, meus amigos, 
Vou contar-vos, tal e qual, 
Um caso que aconteceu, 
Na Fazenda do Brejal. 
Nhá Quirina casada com Nhô João Pedia, 
ao Céu, em prece repetida: 
— "Quero a morte, meu Deus!... 
quero outra vida... 
Este mundo é só fel e confusão." 
Tanto rogou, clamando na oração, 
Que tombou de uma febre, em recaída, 
E, certa noite, a morte, de corrida, 
Veio ao quarto buscá-la, de arrastão... 
Ela acordou aflita em tosse brava, 
O esposo, junto dela, ressonava, 
Enquanto viu a morte, olhando os dois... 
Nhá Quirina encolheu-se num gemido 
E resmungou, no canto do marido: 
— "Leva agora Nhô João, que eu vou depois!..." 

Cornélio Pires