aqui mora a poesia...

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Alba


Alba, no canteiro dos lírios 
estão caídas as pétalas de uma rosa cor de sangue Que tristeza esta vida, minha amiga… 
Lembras-te quando vínhamos 
na tarde roxa e eles jaziam puros 
E houve um grande amor 
no nosso coração pela morte distante? 
Ontem, Alba, sofri porque 
vi subitamente a nódoa rubra 
entre a carne pálida ferida 
Eu vinha passando tão calmo, Alba, 
tão longe da angústia, tão suavizado 
Quando a visão daquela flor 
gloriosa matando a serenidade 
dos lírios entrou em mim 
E eu senti correr em meu corpo 
palpitações desordenadas de luxúria. 
Eu sofri, minha amiga, 
porque aquela rosa me trouxe 
a lembrança do teu sexo que eu não via 
Sob a lívida pureza da tua pele 
aveludada e calma 
Eu sofri porque de repente 
senti o vento e vi que estava nu e ardente 
E porque era teu corpo dormindo 
que existia diante de meus olhos. 
Como poderias me perdoar, 
minha amiga, se soubesses 
que me aproximei da flor como um perdido 
E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas 
e senti escorrer de mim 
o sêmen da minha volúpia? 
Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, 
desfeita e cor de sangue 
Que destino nas coisas, minha amiga! 
Lembras-te, quando eram só os lírios altos e puros? Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, 
altos e trêmulos 
Mas a pureza fugiu dos lírios 
como o último suspiro dos moribundos 
Ficaram apenas as pétalas da rosa, 
vivas e rubras como a tua lembrança 
Ficou o vento que soprou nas minhas faces 
e a terra que eu segurei nas minhas mãos.