aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

A volta da mulher morena

Meus amigos, meus irmãos, cegai
os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena
estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai
os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos,
e vós que amais a poesia da
minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras
quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de t'uas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam estendidos
imóveis ao longo de mim
São como raízes rescendendo resina fresca
São como dois silêncios que me paralisam.
Aventureira do Rio da Vida,
compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a campina matinal
Livra-me do seu dorso como a água escorrendo fria.
Branca avózinha dos caminhos,
reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem
as pernas da mulher morena

Reza para a velhice roer
dentro da mulher morena
Que a mulher morena está
encurvando os meus ombros
E está tra2endo tosse má para o meu peito.
Meus amigos, meus irmãos,
e vós todos que guardais ainda
meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena !