aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

O olhar para trás

Nem surgisse um olhar de piedade ou de amor
Nem houvesse uma branca mão que apaziguasse
minha fronte palpitante..
Eu estaria sempre com um círio queimando
para o céu a minha fatalidade
Sobre o cadáver ainda morno desse passado adolescente.

Talvez no espaço perfeito aparecesse a visão nua
Ou talvez a porta do oratório se fosse abrindo misteriosamente ...
Eu estaria esquecido, tacteando suavemente
a face do filho morto
Partido de dor, chorando sobre o seu corpo insepultavel.

Talvez da carne do homem prostrado
se visse sair uma sombra igual à minha
Que amasse as andorinhas, os seios virgens,
os perfumes e os lírios da terra
Talvez . . . mas tôdas as visôes estariam
também em minhas lágrimas boiando
E elas seriam como óleo santo e como pétalas se derramando sobre o nada.

Alguém gritaria longe : - "Quantas rosas nos deu a primavera!...
Eu olharia vagamente o jardim cheio de sol
e de cores noivas se enlaçando
Talvez mesmo meu olhar seguisse da flor
o vôo rápido de um pássaro
Mas sob meus dedos vivos estaria a sua boca fria
e os seus cabelos luminosos.

Rumores chegariam a mim, distintos como passos na madrugada
Uma voz cantou, foi a irmã,
foi a irmã vestida de branco !
- a sua voz é fresca como o orvalho..
Beijam-me a face - irmã vestida de azul,
por que estás triste ?
Deu-te a vida a velar um passado também?
Voltaria o silêncio - seria uma quietude
de nave em Senhor Morto
Numa onda de dor eu tomaria a pobre face
em minhas mãos angustiadas
Auscultaria o sopro, diria à toa - Escuta, acorda
Por que me deixaste assim sem me dizeres quem eu sou?
E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...
No entanto, dentro do sol a minha sombra se projeta
Sobre as casas avança o seu vago perfil tristonho
Anda, dilui-se, dobra-se nos degraus
das altas escadas silenciosas
E morre quando o prazer pede a treva
para a consumação da sua miséria.

É que ela vai sofrer o instante que me falta
Esse instante de amor, de sonho, de esquecimento
E quando chega, a horas mortas, deixa em meu ser
uma braçada de lembranças
Que eu desfolho saudoso sobre o corpo
embalsamado do eterno ausente.

Nem surgisse em minhas mãos a rósea ferida
Nem porejasse em minha pele o sangue da agonia...
Eu diria - Senhor, por que me escolheste a mim
que sou escravo
Por que me chagaste a mim cheio de chagas ?
Nem do meu vazio te criasses,
anjo que eu sonhei de brancos seios
De branco ventre e de brancas pernas acordadas
Nem vibrasses no espaço em que eu te moldei perfeita...
Eu te diria - Por que vieste te dar ao já vendido?

Oh, estranho húmus deste ser inerme e que eu sinto latente
Escorre sobre mim como o luar nas fontes pobres
Embriaga o meu peito do teu bafo que é como o sândalo
Enche o meu espírito do teu sangue que é a própria vida !
Fora, um riso de criança - longínqua infância
da hóstia consagrada
Aqui estou ardendo a minha eternidade
junto ao teu corpo frágil !
Eu sei que a morte abrirá no meu deserto
fontes maravilhosas
E vozes que eu não sabia em mim lutarão contra a Voz.

Agora porém estou vívendo da tua chama como a cera
O infinito nada poderá contra mim
porque de mim quer tudo
Ele ama no teu sereno cadáver
o terrível cadáver que eu sería
O belo cadáver nu cheio de cicatrizes e de úlceras.

Quem chamou por mim, tu, mãe? Teu filho sonha...
Lembras-te, mãe, a juventude, a grande praia enluarada...
Pensaste em mim, mãe? Oh, tudo é tão triste
A casa, o jardim, o teu olhar, o meu olhar,
o olhar de Deus. . .

E sob a minha mão tenho a impressão da boca fria murmurando
Sinto-me cego e olho o céu
e leio nos dedos a magica lembrança
Passastes, estrelas . . .
Voltais de novo arrastando brancos véus
Passastes, luas,.. Voltais de novo arrastando negros véus...