aqui mora a poesia...

aqui mora a poesia...

O incriado

Distantes estão os caminhos
que vão para o Tempo -
outro luar eu vi passar na altura
Nas plagas verdes as mesmas
lamentações escuto como
vindas da eterna espera
O vento ríspido agita sombras de araucárias
em corpos nus unidos se amando
E no meu ser todas as agitações
se anulam como as vozes
dos campos moribundos.
Oh, de que serve ao amante o amor
que não germinará na
terra infecunda
De que serve ao poeta desabrochar
sobre o pântano e cantar
prisioneiro ?
Nada há a fazer pois que estão brotando
crianças trágicas como cactos
Da semente má que a carne enlouquecida
deixou nas matas silenciosas.
Nem plácidas visoes restam aos olhos
- só o passado surge se a dor surge
E o passado é como o último morto
que é preciso esquecer
para ter vida
Todas as meias-noites soam
e o leito está deserto
do corpo estendido
Nas ruas noturnas a alma passeia,
desolada e só, em busca de Deus.

Eu sou como o velho barco que guarda
no seu bôjo o eterno ruído do mar batendo
No entanto como está longe o mar
e como é dura a terra sob mim . . .
Felizes são os pássaros
que chegam mais cedo que eu à
suprema fraqueza
E que, voando, caem,
pequenos e abençoados, nos parques
onde a primavera é eterna.

Na memória cruel vinte anos seguem
a vinte anos na única
paisagem humana
Longe do homem os desertos continuam
impassíveis diante da morte
Os trigais caminham para o lavrador
e o suor para a terra
E dos velhos frutos caídos surgem
árvores estranhamente calmas.

Ai, muito andei e em vão . . . rios enganosos conduziram
meu corpo a todas as idades
Na terra primeira ninguém conhecia o Senhor das bem aventuranças...
Quando meu corpo precisou repousar eu repousei, quando
minha boca ficou sedenta eu bebi
Quando meu ser pediu a carne eu dei-lhe a carne mas eu
me senti mendigo.
Longe está o espaço onde existem os grandes vôos e onde
a música vibra solta
A cidade deserta é o espaço onde o poeta sonha os grandes
vôos solitários
Mas quando o desespero vem e o poeta se sente morto
para a noite
As entranhas das mulheres afogam o poeta e o entregam
dormindo à madrugada.

Terrível é a dor qüe lança o poeta prisioneiro à suprema
miséria
Terrível é o sono atormentado do homem que suou sacrí-
legamente a carne
Mas boa é a companheira errante que traz o esquecimento
de um minuto
Boa é a esquecida que dá o lábio morto ao beijo desesperado.

Onde os cantos longínquos do oceano?... Sobre a espessura
verde eu me debruço e busco o infinito
Ao léu das ondas há cabeleiras abertas como flores - são
jovens que o eterno amor surpreendeu
Nos bosques procuro a seiva úmida mas os troncos estão
morrendo
No chão vejo magros corpos enlaçados de onde a poesia
fugiu como o perfume da flor morta.

Muito forte sou para odiar nada senão a vida
Muito fraco sou para amar nada mais do que a vida
A gratuidade está no meu coração e a nostalgia dos dias
me aniquila
Porque eu nada serei como ódio e como amor se eu nada
conto e nada valho.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não teve a sua alma e
semelhança
Eu sou o que surgiu da terra e a quem não coube outra
dor senão a terra
Eu sou a carne louca que freme ante a adolescência impúbere
e explode sobre a imagem criada
Eu sou o demônio do bem e o destinado do mal mas eu
nada sou.

De nada vale ao homem a pura compreensão de todas as
coisas
Se ele tem algemas que o impedem de levantar os braços
para o alto
De nada valem ao homem os bons sentimentos se ele
descansa nos sentimentos maus
No teu puríssimo regaço eu nunca estarei, Senhora...
Choram as árvores na espantosa noite, curvadas sobre
mim, me olhando . . .
Eu caminhando . . . sobre o meu corpo as árvores passando...
Quem morreu se estou vivo, por que choram as árvores?
Dentro de mim tudo está imóvel, mas eu estou vivo, eu sei
que estou vivo porque sofro.
Se alguém não devia sofrer eu não devia, mas sofro e é
tudo o mesmo
Eu tenho o desvelo e a bênção, mas sofro como um desesperado
e nada posso
Sofro a pureza impossível, sofro o amor pequenino dos
olhos e das mãos
Sofro porque a náusea dos seios gastos está amargurando
a minha boca.
Não quero a esposa que eu violaria nem o filho que ergueria
a mão sobre o meu rosto
Nada quero porque eu deixo traços de lágrimas por onde
passo
Quisera apenas que todos me desprezassem pela minha
fraqueza
Mas, pelo amor de Deus, não me deixeis nunca sozinho!

As vezes por um segundo a alma acorda para um grande
extase sereno
Num sopro de suspensão a beleza passa e beija a fronte
do homem parado
E então o poeta surge e do seu peito se ouve uma voz
maravilhosa
Que palpita no ar fremente e envolve todos os gritos num
só grito.

Mas depois, quando o poeta foge e o homem volta como de
um sonho
E sente sobre a sua boca um riso que ele desconhece
A cólera penetra em seu coração e ele renega a poesia
Que veio trazer de volta o princípio de todo o caminho
percorrido.

Todos os momentos estão passando e todos os momentos
estão sendo vividos
A essência das rosas invade o peito do homem e ele se
apazigua no perfume
Mas se um pinheiro uiva no vento o coração do homem
cerra-se de inquietude
No entanto ele dormirá ao lado dos pinheiros uivando e das
rosas rescendendo.
Eu sou o Incriado de Deus, o que não pode fugir à carne
e à memória
Eu sou como o velho barco longe do mar, cheio de lamentações
no vazio do bojo
No meu ser todas as agitações se anulam - nada permanece
para a vida
Só eu permaneço parado dentro do tempo passando,
passando, passando...